Os solos brasileiros, em sua maioria, são resultado de um longo processo de intemperização em clima tropical, com altas temperaturas e elevados índices de chuva.
Esse ambiente intensifica a lixiviação de cálcio, magnésio e potássio, elevando a acidez (ph baixo) e a presença de alumínio no solo. Como consequência, há limitação do desenvolvimento radicular e menor eficiência no aproveitamento de nutrientes pelas culturas.
Neste sentido, práticas corretivas como a calagem e a gessagem tornam-se importantes e estratégias de manejo para a melhoria das condições químicas do solo. Ao longo deste conteúdo, você encontrará orientações práticas e exemplos aplicados à realidade do campo para apoiar escolhas mais seguras e rentáveis na sua propriedade.
O que é calagem e gessagem e para que servem?
Calagem
A calagem é uma prática milenar. Existem registros do seu uso desde a antiguidade, principalmente por gregos e romanos, para melhoramento dos solos cultiváveis.
Trata-se da aplicação de corretivos a base de calcário no solo, com o objetivo de corrigir a acidez, elevar o pH e melhorar as condições químicas do mesmo. Ela reduz a toxicidade do alumínio, um dos principais fatores limitantes em solos ácidos.
Além disso, quando realizada com base em análise de solo e cálculo adequado, a calagem favorece a atividade biológica e o melhor aproveitamento de fertilizantes, contribuindo ainda mais ao sistema produtivo.
Gessagem
A gessagem é uma prática bem mais recente, e começou a ganhar destaque mundial na década de 70.
Consiste na aplicação de gesso agrícola (sulfato de cálcio) no solo, atuando principalmente para redução da toxicidade do alumínio em camadas mais profundas. Nessas camadas, onde a incorporação do calcário é naturalmente mais limitada, a gessagem atua de forma complementar à calagem, ampliando o alcance da correção química.
Diferentemente da calagem, que atua diretamente na elevação do pH da camada superficial, a gessagem não altera o pH do solo. Sua ação ocorre pela movimentação do cálcio no perfil, favorecendo o aprofundamento do sistema radicular e ampliando o acesso da planta à água e aos nutrientes.
Quando bem dimensionadas e utilizadas de forma integrada, calagem e gessagem promovem maior equilíbrio químico no perfil do solo, contribuindo para estabilidade produtiva e melhor aproveitamento dos insumos ao longo do ciclo das culturas.
Papel do gesso agrícola no equilíbrio de cálcio e enxofre
O gesso agrícola (CaSO₄·2H₂O) é um elemento estratégico para a correção de solos ácidos altamente intemperizados, complementando a calagem. Diferente do calcário, por exemplo, ele não eleva o pH, mas fornece cálcio e enxofre de alta solubilidade, essencial para a estabilidade química do solo.
A alta solubilidade permite sua movimentação para camadas conhecidas como subsuperficiais (0 a 40 cm). O enxofre fornecido pelo gesso é imediatamente disponível para as plantas, desempenhando funções importantes.
Entre os principais benefícios agronômicos estão o aprofundamento do sistema radicular, maior eficiência de fertilizantes e melhora do perfil químico sem alterar o pH da superfície.
Por que o cálculo correto de gessagem e calagem é essencial
O cálculo de gessagem e calagem feito de forma equilibrada e correta é fundamental, pois sua atuação interfere diretamente no equilíbrio químico do solo, influenciando o pH, a disponibilidade nutricional e o desenvolvimento da cultura.
Em relação a gessagem, é importante prestar atenção em alguns pontos:
- A ação do gesso não ocorre nas camadas superficiais do solo, atuando principalmente em profundidade;
- Cálculos incorretos podem provocar deslocamento excessivo de cátions, como magnésio e potássio, para camadas mais profundas;
- É necessário considerar as características do solo por meio de análises em maior profundidade, geralmente entre 20 e 40 cm;
- A quantidade de gesso a ser aplicada depende diretamente dessa análise bem estruturada.
Já para o cálculo da calagem:
- O dimensionamento adequado permite elevar o pH do solo a níveis compatíveis com a cultura;
- A prática contribui para o aumento da saturação por bases e a neutralização do alumínio;
- Doses insuficientes mantêm a acidez ativa e limitam o crescimento radicular;
- Doses excessivas podem provocar desequilíbrios na relação entre cálcio (Ca), magnésio (Mg) e potássio (K).
O cálculo correto da aplicação destas práticas pode auxiliar a sustentar ganhos e promover maior rentabilidade ao longo do tempo.
Passo a passo do cálculo de calagem
Na realização da calagem, seguimos esse passo a passo:
- Coleta da amostragem de solo (0 a 20 cm);
- Encaminhamento para o laboratório;
- Definição do tipo e da dose de calcário;
- Aplicação (plantio direto ou plantio convencional).
Dados necessários da análise
A análise de solo para a calagem precisa fornecer dados que permitam avaliar a acidez, a fertilidade e qual a necessidade de correção do solo. Dessa forma, precisam estar presentes dados de:
- pH do solo (geralmente em CaCl₂);
- Cálcio (Ca²⁺);
- Magnésio (Mg²⁺);
- Potássio (K⁺);
- Alumínio trocável (Al³⁺);
- CTC (Capacidade de Troca de Cátions) a pH 7,0;
- Saturação por bases (V%).
Métodos de cálculo mais utilizados
Existem três métodos de cálculos para a calagem. O mais comum e utilizado na agricultura moderna é o método da saturação por bases.
- Saturação por bases (V%): é o método mais usado em solos tropicais; compara-se a V% atual do solo com a V% desejada. A diferença indica a necessidade de correção. Culturas anuais tem V% desejado entre 60 a 70%, e pastagens, de 50% a 60%;
- Saturação por alumínio: ideal para solos com alto teor de alumínio; calcula-se a dose necessária para que a relação Al³⁺/CTC fique abaixo do limite de toxicidade;
- Neutralização da acidez potencial: calcula a quantidade necessária para neutralizar toda a acidez trocável do solo. Seu uso é simples e direto.
Passo a passo do cálculo de gessagem
Vale salientar que a gessagem atua de forma complementar à calagem. Dessa forma, seu cálculo deve levar em conta a profundidade de incorporação desejada e o teor atual de cálcio nessas camadas.
Quando a gessagem é recomendada
A gessagem é recomendada principalmente quando o objetivo é corrigir limitações químicas em camadas mais profundas do solo, onde a calagem tem efeito limitado. De forma prática, as principais indicações são:
- Solos ácidos e intemperizados;
- Culturas com raízes profundas (como milho, soja e algodão) ;
- Solos com baixo teor de enxofre.
Critérios técnicos para o cálculo
Alguns critérios técnicos são indispensáveis para o cálculo da calagem. São eles:
- Determinação da necessidade de gesso (NG): calculado com base no déficit de cálcio disponível no perfil do solo. A fórmula para tal consiste em:
NG = [(V2-V1) x CTC] / 500
onde:
V2: Saturação por bases esperada(%);
V1: Saturação por bases atual na camada 20 a 40 cm (%);
CTC: Capacidade de troca catiônica na camada de 20 a 40 cm.
- Ajuste do teor de enxofre e qualidade do gesso: O gesso agrícola (ou fosfogesso) possui teor variável de Ca e S. Dessa forma, temos:
DOSE FINAL (t/ha) = NG / (Teor de cálcio do gesso/100)
onde:
NG : Necessidade de gesso
- Forma de aplicação: distribuição uniforme, como forma de garantir que o gesso se mova no perfil e alcance a zona radicular desejada.
- Monitoramento e ajuste: Acompanhar o teor de cálcio e alumínio até 40 cm, e ajustar doses futuras, conforme respostas das culturas. Para definir a dose correta, a fonte mais adequada e a melhor forma de aplicação, é recomendável consultar um engenheiro-agrônomo de confiança, com base em análise de solo atualizada.
Impactos da gessagem e calagem na produtividade e sustentabilidade
A calagem e a gessagem podem impulsionar ganhos reais de produtividade e melhorar a sustentabilidade. Na produtividade, estudos científicos mostram que a correção da acidez do solo com calcário melhora a produtividade das culturas, refletindo em maiores rendimentos.
No amendoim, por exemplo, o uso de gesso promoveu melhorias nas condições químicas do solo e incremento médio de 13,32 sacas de 25 kg com casca, em comparação à área sem gesso.
Em relação à sustentabilidade, os resultados são notórios: melhora da qualidade do solo, eficiência do uso de fertilizantes, além de uma estabilidade química do solo (favorecimento da biota).
Calagem e gessagem como decisões estratégicas de manejo do solo
Aplicar calagem e gessagem corretamente vai além da correção química. Trata-se de uma decisão estratégica que melhora o aproveitamento de nutrientes, fortalece o sistema radicular e contribui para solos mais equilibrados e produtivos ao longo do tempo.
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