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Como manejar seu solo para altas produtividades de cana-de-açúcar

A cultura da cana-de-açúcar é parte importante da história da agricultura do Brasil. Trazida em meados do século XVI para as então capitanias de Pernambuco, Bahia e São Vicente, desde seu início, tem apresentado um papel muito importante na geração de renda pela produção e exportação de açúcar e, mais recentemente, etanol.

Como a planta que atualmente conhecemos como cana-de-açúcar se originou em regiões tropicais do Sul e Sudeste da Ásia, esta encontrou no clima brasileiro condições ideais para seu desenvolvimento. De acordo com o zoneamento agroecológico para a cana-de-açúcar desenvolvido pela Embrapa em 2009, regiões de alta aptidão para a cana-de-açúcar devem apresentar temperatura média maior que 19°C, baixa probabilidade de ocorrência de geadas, chuvas bem distribuídas (a cana necessita em média de 2 a 5 litros de água por metro quadrado por dia para completar o seu ciclo) e solos com boa fertilidade, retenção de água, baixa suscetibilidade a erosão e com pouco impedimento a mecanização e ao desenvolvimento do sistema radicular.

É claro que nem sempre é possível ter todas estas características em uma área. O clima, por exemplo, é um fator que não pode ser alterado e impacta muito na produtividade. Em um trabalho em canaviais do Estado de São Paulo em um período de 15 anos identificou-se que cerca de 46% da variabilidade de eficiência de produção foi atribuída a variáveis de clima como luz solar, temperatura e chuvas.

Mas, se não conseguimos controlar o clima, algumas estratégias podem ser adotadas para reduzir os impactos de condições adversas. Mesmo não estando o ambiente naturalmente favorável ao estabelecimento da cana-de-açúcar, conseguimos atingir ótimas produtividades utilizando informações técnicas adequadas e fazendo o manejo correto do solo e da cultura.

Vamos lembrar de que o solo é um grande reservatório de água para as plantas. A água fica estocada em pequenos poros, alguns destes menores do que um fio de cabelo, e que vão se enchendo ou esvaziando, de forma geral, conforme ocorrem as chuvas ou se as plantas absorvem água. A manutenção da estrutura do solo de forma a preservar estes pequenos “reservatórios” é fundamental para que a cana tenha água disponível durante todo o seu ciclo. O preparo correto do solo e a sistematização da área com curvas de nível, terraços e outras estruturas que levem em conta características de relevo e clima, previnem a perda de solo por erosão, permitem que a água da chuva infiltre com maior velocidade, criam condições para a manutenção da porosidade e tudo isso facilita o desenvolvimento de raízes e absorção de água pelas plantas.

Mas não é só a parte física que conta para boas produtividades. Além de ser um reservatório de água, o solo também estoca nutrientes que desempenham funções específicas nas plantas. A correção da fertilidade dos solos, além de garantir o desenvolvimento vegetativo da cultura, é também uma forma de permitir que as raízes se desenvolvam não só na superfície, mas também em camadas mais profundas.

É importante lembrar de que, como a cana-de-açúcar é uma cultura semi-perene, o momento da implantação do canavial é crítico para garantir que a cultura consiga se estabelecer na área e ter maior longevidade ao longo de diversos cortes. A correção do solo em profundidade tem se mostrado como uma estratégia importante para garantir o potencial produtivo da cana-de-açúcar. Um experimento conduzido em dois solos do estado de São Paulo demonstrou que a incorporação de calcário em profundidade e em maiores doses resultou em cerca de 20 toneladas por hectare a mais de cana, explicado isso pelo autor ao maior volume de solo corrigido o que proporcionou maior desenvolvimento do sistema radicular. Outros manejos como utilização de gesso agrícola e aplicação de doses adequadas de fósforo na implantação do canavial também tem se mostrado como práticas culturais que favorecem o desenvolvimento da cultura e resultam em maiores produtividades.

Uma forma prática de demonstrar a importância do aprofundamento das raízes pode ser calculada da seguinte forma: para a maioria dos solos brasileiros, a cada centímetro que o sistema radicular de uma planta se aprofunda este encontra o equivalente a cerca de 1 litro de água por metro quadrado de solo. Assim, considerando um hectare de cana-de-açúcar, a cada 1 cm que o sistema radicular se aprofunda no solo estarão disponíveis para as plantas cerca de 10.000 litros adicionais de água. E como vimos, garantir não só a boa fertilidade dos solos mas também a disponibilidade de água para a cana-de-açúcar durante todo o ciclo é fator crucial para o sucesso da cultura.

Flavio Bonini

Bibliografia consultada:

CARVALHO, G.L. Eficiência da Produção Agrícola de Cana-de-açúcar no Estado de São Paulo  entre as safras 1990/91 e 2005/06. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/11/11131/tde-09092009-104146/publico/Gustavo_Carvalho.pdf. Acesso em: 22 nov. 2017

GARCIA, C.P. Efeitos do preparo profundo do solo e da calagem na compactação do solo e na produtividade da cana-de-açúcar. Disponível em : https://repositorio.unesp.br/bitstream/11449/152925/3/garcia_cp_me_botfca.pdf. Acesso em: 29 nov. 2017

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