Há tempos, a agricultura regenerativa tem se consolidado como uma abordagem que concilia produtividade agrícola, conservação ambiental e uso eficiente dos recursos naturais disponíveis. Neste cenário, os bioinsumos ganham um papel bastante estratégico, à medida que intensificam os processos biológicos do solo e aumentam a eficiência do uso de nutrientes.
Entretanto, o chamado mito da substituição, que consiste na ideia de que os bioinsumos podem substituir completamente o uso de fertilizantes minerais na lavoura, ainda persiste. Mas é aí que o produtor precisa ser cauteloso, especialmente porque interpretações mais simplistas, com um viés menos técnico, podem comprometer o desempenho e a produtividade da lavoura pois, na prática, a agricultura regenerativa se baseia na integração biológica e química, não na substituição entre elas.
Continue a leitura para saber mais sobre o assunto e sobre como os bioinsumos são uma peça-chave para uma agricultura mais produtiva e sustentável!
O que é agricultura regenerativa e quais são suas principais práticas?
A agricultura regenerativa é um modelo de produção que tem como objetivo recuperar, manter e potencializar os processos naturais do ecossistema agrícola, buscando melhorar os atributos físicos, químicos e biológicos do solo.
Assim, a agricultura regenerativa reduz os impactos da atividade agronômica ao mesmo tempo que promove a regeneração dos recursos produtivos, trazendo maior estabilidade e resiliência para as lavouras.
Entre suas principais práticas, destacam-se:
- Rotação e diversificação de culturas;
- Cobertura permanente do solo;
- Redução do revolvimento;
- Incremento de matéria orgânica,
Sistemas que são mais diversificados tendem a apresentar maior estabilidade ecológica e produtiva, uma vez que se tornam menos vulneráveis às variações climáticas e a estresses abióticos. Além disso, solos mais saudáveis estão diretamente relacionados ao aumento da produtividade e da eficiência no uso de nutrientes.
O mito da substituição na agricultura regenerativa
O chamado mito da substituição consiste na crença de que o uso de bioinsumos na lavoura pode substituir integralmente a aplicação de fertilizantes minerais ao longo do ciclo de cada cultura.
Porém, essa crença está equivocada, tanto quando analisamos os aspectos técnicos, quanto ao procurar por evidências na literatura.
Do ponto de vista técnico, a ideia de substituição é restrita, pois os bioinsumos, de modo geral, não atuam como fontes diretas de nutrientes em magnitude suficiente para suprir integralmente a demanda das culturas. Entretanto, determinados bioinsumos podem contribuir significativamente para o aporte de nutrientes via processos biológicos específicos. Um exemplo clássico é a inoculação com Bradyrhizobium em soja, que pode suprir a maior parte da exigência de nitrogênio da cultura por meio da fixação biológica de N₂. Adicionalmente, microrganismos solubilizadores de fósforo aumentam a disponibilidade desse nutriente no solo, melhorando sua eficiência de uso pelas plantas.
Diferentemente disso, os fertilizantes minerais entregam nutrientes de forma mais rápida e previsível. Por isso, na agricultura regenerativa, o caminho mais eficiente não é substituir, mas integrar biologia e nutrição mineral para garantir produtividade e equilíbrio do sistema no longo prazo.
Essa mesma lógica é confirmada também pela literatura científica. Estudos mostram que os bioinsumos apresentam melhores resultados quando usados junto com a adubação mineral. Em experimentos com Azospirillum brasilense em milho, por exemplo, a combinação entre inoculação e fertilização nitrogenada e fosfatada aumentou a produtividade e melhorou o aproveitamento dos nutrientes, permitindo até reduzir parte do nitrogênio sem perda de rendimento.
Outros estudos e revisões também apontam que o uso combinado de bioinsumos e fertilizantes gera melhores resultados de solo e produtividade do que o uso isolado, além de destacar que a resposta biológica pode variar conforme o ambiente e o manejo. Isso reforça o consenso técnico de que bioinsumos não substituem, mas complementam o sistema produtivo
Quais os problemas causados pela substituição de fertilizantes por bioinsumos?
Quando a aplicação de fertilizantes minerais é substituída pela aplicação de bioinsumos na lavoura, alguns dos principais problemas que podem acontecer são:
- Deficiências nutricionais;
- Redução da produtividade;
- Desequilíbrios no sistema produtivo.
Dessa forma, a agricultura regenerativa propõe a utilização dos insumos e bioinsumos de forma estratégica, eficiente e integrada aos processos biológicos do solo.
Qual o papel dos bioinsumos na agricultura regenerativa
Assim, os bioinsumos são responsáveis por intensificar os processos biológicos do solo, contribuindo diretamente para a performance e a produtividade das culturas.
Entre suas principais funções, destacam-se:
- Fixação biológica de nitrogênio;
- Mobilização e solubilização de fósforo;
- Estímulo ao crescimento radicular;
- Aumento da tolerância a estresses abióticos.
Microrganismos como Azospirillum brasilense são amplamente reconhecidos por sua capacidade de promover crescimento vegetal por múltiplos mecanismos, incluindo produção de fitormônios e aumento da absorção de nutrientes (BASHAN; DE-BASHAN, 2010; HUNGRIA; NOGUEIRA; ARAUJO, 2012).
Além disso, a microbiota do solo é um dos principais motores da produtividade agrícola, influenciando diretamente a ciclagem de nutrientes e a estabilidade dos ecossistemas (VAN DER HEIJDEN; BARDGETT; VAN STRAALEN, 2008).
Por outro lado, as substâncias húmicas, compostos naturais derivados da decomposição da matéria orgânica, também são muito relevantes, por serem fundamentais na melhoria da estrutura do solo e no desenvolvimento radicular.
Essas substâncias estão presentes em:
- Matéria orgânica do solo (restos vegetais e raízes);
- Compostos orgânicos (esterco, compostagem);
- Ambientes com alto aporte de carbono.
Vale salientar que os sistemas de agricultura regenerativa naturalmente favorecem a sua formação, já que aumentam a quantidade de matéria orgânica e a atividade microbiana, resultando em solos mais equilibrados e produtivos.
Integração estratégica de bioinsumos no manejo
A eficiência dos bioinsumos está diretamente ligada à forma como eles são integrados à lavoura. Por isso, é indispensável que o produtor considere fatores fundamentais como o tipo e a fertilidade do solo, as condições climáticas e o histórico de manejo da área, já que esses elementos influenciam diretamente a resposta biológica no campo.
Dentro dessa abordagem algumas ferramentas são essenciais para tornar a tomada de decisão mais precisa. A realização das análises completas de solo, incluindo aspectos físicos, químicos e biológicos, facilita o entendimento do ambiente produtivo disponível e direciona o uso de insumos. Aliado a isso, o equilíbrio do manejo nutricional, a rotação e diversificação de culturas e o monitoramento contínuo contribuem para potencializar os resultados.
Ao final, mais do que aplicar tecnologias isoladamente, o desafio maior do produtor está em construir um sistema que seja coerente com suas necessidades, onde cada insumo aplicado na lavoura cumpra um papel complementar e a mantenha preparada para as variações que podem afetar a produção.
Integração entre nutrição mineral e biologia do solo
A integração de diferentes ferramentas que melhoram o desempenho das culturas no campo dá ainda mais potencial para a agricultura regenerativa. Afinal, soluções que unem fertilizantes minerais com microrganismos benéficos melhoram o aproveitamento dos nutrientes disponíveis no solo, diminuem perdas ao longo do processo e tornam o desenvolvimento radicular mais eficiente.
Esse tipo de manejo abre caminho para respostas mais estáveis ao longo do ciclo, justamente porque equilibram fontes de nutrientes e processos biológicos. Dessa forma, enquanto a adubação fornece o suprimento necessário, a atividade dos bioinsumos no solo potencializa esse processo e possibilita um maior aproveitamento dele pelas plantas.
Como a Mosaic apoia a agricultura regenerativa?
A Mosaic possui um portfólio completo, contando com soluções que integram nutrição eficiente e sustentabilidade, alinhadas aos princípios da agricultura regenerativa.
Um exemplo é o Mbio Phos, que reúne microrganismos como:
- Azospirillum brasilense, associado à fixação biológica de nitrogênio e ao desenvolvimento radicular;
- Pseudomonas fluorescens, que atua na mobilização do fósforo no solo e potencializa o aproveitamento do nutriente pelas plantas.
Quando associados a fertilizantes desenvolvidos com tecnologias de maior eficiência, esses produtos contribuem para um uso mais eficiente dos nutrientes disponíveis no sistema, além de ajudar a minimizar perdas ao longo do ciclo produtivo e favorecer melhores resultados no campo.
Essa estratégia evidencia como a combinação entre biologia e nutrição mineral atua de forma complementar, contribuindo para sistemas produtivos mais equilibrados e consistentes.
Conclusão
A agricultura regenerativa corresponde a uma evolução nos modelos de produção agrícola, se baseando na integração de práticas e tecnologias.
Assim, o mito da substituição deve ser superado, dando lugar a uma visão técnica fundamentada na complementaridade entre bioinsumos e insumos tradicionais.
Para aprofundar seus conhecimentos e saber como tomar decisões mais assertivas no uso de biológicos no campo, confira o episódio “Feras do Agro [#19] – Biológicos no Agro: O que você precisa saber para não errar”, do Podcast Nutrição de Safras, abaixo: