O objetivo da adubação é, antes de tudo, potencializar os componentes de produção e, ao mesmo tempo, assegurar o adequado equilíbrio das relações fonte-dreno. Este equilíbrio é essencial para que a planta consiga desenvolver, de forma harmoniosa, tanto suas estruturas vegetativas quanto as reprodutivas, com um gasto energético bem distribuído.
No caso específico da adubação do feijoeiro, os principais componentes de produção a serem considerados são: o número de vagens por metro quadrado, o número de grãos por vagem e a massa de mil grãos. Esses fatores podem ser expressos na seguinte fórmula:
𝑃𝑟𝑜𝑑𝑢𝑡𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 (𝑡 ℎ𝑎−1)=𝑛º 𝑣𝑎𝑔𝑒𝑛𝑠 𝑚−2𝑥 𝑛º 𝑑𝑒 𝑔𝑟ã𝑜𝑠 𝑣𝑎𝑔𝑒𝑚−1 𝑥 (𝑚𝑎𝑠𝑠𝑎 𝑑𝑒 𝑚𝑖𝑙 𝑔𝑟ã𝑜𝑠(𝑔) 𝑥 10−5)
Dessa forma, as estratégias de adubação voltadas ao cultivo do feijoeiro devem ser cuidadosamente planejadas para maximizar esses três fatores. Ao fazer isso, é possível alcançar uma produtividade mais elevada e sustentável. Continue a leitura para saber mais sobre como aplicar essas estratégias de maneira eficiente!
Como é a cultura do feijão no Brasil?
A cultura do feijão está presente em todo o território nacional. No entanto, dez estados concentram a maior parte da produção: Paraná, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Piauí, Mato Grosso, Pernambuco, Goiás, Paraíba e São Paulo — nesta ordem —, sendo responsáveis por 87% da produção nacional.
Na safra 2023/2024, a produtividade variou significativamente, oscilando entre 5 e 45 sacas por hectare. Essa ampla variação se deve, principalmente, à presença da cultura em diferentes ambientes de produção espalhados pelo país, cada um com suas particularidades climáticas e edafológicas.
Além disso, o feijão é uma cultura cultivada ao longo de todo o ano, o que contribui para sua importância estratégica na agricultura brasileira. O chamado feijão de 1ª época, ou feijão das águas, é cultivado entre agosto e dezembro. Em seguida, o feijão de 2ª época, também conhecido como safra da seca, é plantado de janeiro a abril. Por fim, o feijão de 3ª época, ou safra de outono/inverno, tem seu cultivo concentrado entre maio e julho.
O sucesso da cultura em cada uma dessas épocas está diretamente relacionado a diversos fatores, como a disponibilidade hídrica (especialmente em lavouras de sequeiro), o arranjo de plantas, a escolha da cultivar e as condições do solo.
Como deve estar o solo para a adubação correta do feijoeiro?
No que diz respeito às condições do solo, altas produtividades e maior rentabilidade só são alcançadas quando há adequadas condições edáficas, considerando-se as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. Nesse contexto, a ausência de compactação, a presença de altos teores de matéria orgânica e um solo biologicamente ativo são fatores essenciais para maximizar o desenvolvimento do sistema radicular das plantas.
Em relação às propriedades químicas, estas desempenham um papel fundamental no fornecimento adequado e equilibrado de nutrientes ao longo do ciclo da cultura. Para que esse fornecimento ocorra de forma eficiente, é indispensável o planejamento, a priorização e a execução de estratégias de correção e adubação.
O primeiro passo para isso é a realização de uma amostragem de solo correta, seguida do envio das amostras para um laboratório certificado. A análise química resultante será a base para definir a estratégia de adubação mais apropriada, levando em conta os teores dos elementos presentes no solo. Quando os níveis estiverem abaixo do nível crítico, serão necessárias estratégias de correção; por outro lado, se estiverem acima, adota-se uma abordagem de manutenção ou reposição.
Além disso, o conhecimento sobre as exigências nutricionais do feijoeiro — incluindo suas taxas de extração, exportação e o índice de colheita (conforme ilustrado na Figura 1) — é fundamental para embasar e refinar essas estratégias de manejo da fertilidade do solo.

Figura 1. Extração, exportação e índice de colheita para cultura do feijão (Fonte: Nutrição de Safras).
A adoção de estratégias corretivas, como o uso de calcário e gesso agrícola, deve ser cuidadosamente planejada. Isso porque o feijoeiro apresenta elevada exigência em relação à saturação por bases, sendo ideal que esse valor seja igual ou superior a 70%.
Além disso, a cultura é altamente sensível à presença de alumínio trocável (Al³⁺), especialmente nas camadas superficiais do solo (0–10 cm e 10–20 cm), bem como na camada subsuperficial (20–40 cm). Nesses casos, a aplicação de corretivos como o calcário e o gesso contribui significativamente para a redução da toxicidade por alumínio, promovendo um ambiente mais favorável ao crescimento das raízes.
Adubação NPK para o feijoeiro
No que se refere à adubação, os macronutrientes nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) se destacam, principalmente devido às quantidades extraídas e exportadas pela cultura, bem como aos seus índices de colheita (Figura 1). No entanto, elementos como enxofre, boro, zinco e molibdênio também desempenham papéis fundamentais para alcançar altas produtividades e garantir a qualidade da colheita.
Entre os nutrientes, o nitrogênio é o mais exigido pelo feijoeiro, com uma taxa de extração de 40 kg t⁻¹ e exportação de 27 kg t⁻¹. No índice de colheita, o N ocupa a segunda posição (58,70%), ficando atrás apenas do fósforo, que apresenta um índice de 80% (Figura 1). Essa elevada demanda está diretamente relacionada às funções essenciais do nitrogênio na planta: ele é responsável pelo crescimento e desenvolvimento da massa vegetal, participa da formação de aminoácidos e proteínas, e atua diretamente nos processos fotossintéticos. Além disso, o suprimento adequado de N está positivamente correlacionado com o aumento do número de vagens por metro quadrado e com a massa de mil grãos.
Por outro lado, a deficiência de nitrogênio pode comprometer seriamente a produtividade e a qualidade da colheita. Entre os sintomas mais comuns estão o porte reduzido das plantas, o amarelecimento das folhas mais velhas, a diminuição do número de vagens e o seu abortamento. Para evitar esses problemas, é fundamental que a adubação nitrogenada seja realizada com atenção e critério.
As recomendações para a adubação com nitrogênio geralmente consideram quatro fatores principais:
- Rendimento desejado – baseado no histórico de produtividade da área e na cultura antecessora;
- Teor de matéria orgânica (MO) – que influencia diretamente a liberação de N por mineralização. A partir de 3% de MO no solo, cada ponto percentual pode contribuir com 10 a 12 kg ha⁻¹ de N;
- Eficiência da fonte nitrogenada – fontes como a ureia (45% de N) podem apresentar perdas de até 40–45% se mal aplicadas, enquanto fontes estabilizadas aumentam a eficiência da adubação;
- Fixação biológica de nitrogênio (FBN) – que pode complementar o fornecimento de N, especialmente em sistemas bem manejados.
Fixação biológica de nitrogênio na cultura do feijão
No que diz respeito à fixação biológica de nitrogênio (FBN) na cultura do feijão, embora diversos avanços tenham sido alcançados no uso de inoculantes, essa simbiose ainda não é capaz de suprir totalmente a demanda da planta por nitrogênio — diferentemente do que ocorre com a soja.
Ainda assim, a prática da inoculação traz benefícios diretos, especialmente nos estágios R7 e R8, que correspondem ao início e ao término do enchimento de grãos. Nessas fases, condições adequadas de solo — como pH equilibrado, presença de matéria orgânica e ausência de compactação — favorecem a manutenção e a viabilidade dos nódulos, permitindo a continuidade da fixação e assimilação do nitrogênio.
Essa contribuição torna-se particularmente importante, pois, durante os estágios R7 e R8, as relações fonte-dreno se intensificam, direcionando os fotoassimilados para os grãos. Como consequência, a absorção de nitrogênio pelas raízes tende a diminuir, e a FBN passa a desempenhar um papel complementar no suprimento desse nutriente.
Além disso, a FBN oferece outros benefícios relevantes para o feijoeiro, como a produção de substâncias estimulantes e protetoras nas raízes, bem como o aumento da absorção de micronutrientes metálicos (como zinco, cobre, manganês e ferro), em função da acidificação da rizosfera. Diante disso, a inoculação deve ser considerada uma estratégia de manejo essencial para a cultura.
Quanto às doses de nitrogênio, recomenda-se a aplicação de 15 a 30 kg ha⁻¹ na semeadura e de 30 a 60 kg ha⁻¹ em cobertura, preferencialmente entre os estágios V2 e V4. Vale destacar que essas doses podem variar conforme o boletim técnico regional adotado. Por exemplo, no Estado de São Paulo, o Boletim 100 (2022) orienta que a adubação de cobertura seja ajustada conforme a resposta esperada da área: em áreas de alta resposta, as doses variam de 80 a 120 kg ha⁻¹; já em áreas de média ou baixa resposta, as recomendações ficam entre 40 e 80 kg ha⁻¹, sempre considerando a expectativa de produtividade.
Suprimento de enxofre no feijoeiro
Outro aspecto relevante para o aumento da eficiência da adubação nitrogenada na cultura do feijoeiro é o adequado suprimento de enxofre (S). Esse nutriente desempenha funções essenciais no metabolismo do nitrogênio, como a síntese de aminoácidos e proteínas, além de participar de processos relacionados à fixação biológica de nitrogênio (FBN). O enxofre também contribui positivamente para a qualidade da colheita, elevando o teor proteico dos grãos.
A deficiência de enxofre nas lavouras pode resultar em baixa produtividade e em grãos de qualidade inferior. Além disso, plantas com deficiência desse nutriente tornam-se mais suscetíveis ao ataque de pragas e doenças. Isso ocorre porque o desequilíbrio na relação N:S favorece o acúmulo de formas solúveis de nitrogênio nas células, o que pode atrair organismos patogênicos.
As doses de enxofre podem ser definidas de duas maneiras. A primeira considera a produtividade esperada: para cada 1,0 t ha⁻¹ de feijão a ser produzida, recomenda-se a aplicação de 10 kg ha⁻¹ de enxofre. A segunda abordagem sugere uma faixa fixa de aplicação, entre 10 e 45 kg ha⁻¹, independentemente da produtividade estimada.
Quanto às fontes, o gesso agrícola pode ser utilizado especialmente quando há necessidade de neutralizar o alumínio trocável (Al³⁺) em camadas mais profundas do solo. Alternativamente, podem ser utilizados fertilizantes que contenham enxofre em sua composição, conforme a necessidade do sistema de produção.
Adubação fosfatada no feijoeiro
A adubação fosfatada é, entre todas, a que mais influencia a produtividade do feijoeiro. O fósforo (P) destaca-se como o nutriente de maior eficiência de uso pela cultura, ou seja, é aquele que proporciona a maior produção de grãos por unidade de P acumulada. Além disso, o fósforo apresenta correlações positivas com diversos componentes de produção, como o aumento da matéria seca da parte aérea, da massa de mil grãos (MMG) e, especialmente, do número de vagens por metro quadrado — este último sendo o fator de maior impacto na produtividade final.
No entanto, apesar da importância do fósforo, é incorreto assumir que o simples aumento das doses resultará em maior produtividade. A compreensão da Lei dos Incrementos Decrescentes, ou Lei de Mitscherlich, é fundamental nesse contexto. Essa lei demonstra que há um limite para o aumento da produtividade com o incremento de doses, tanto por interações antagônicas — como entre fósforo e zinco — quanto pela redução do retorno econômico, conceito conhecido como Dose de Máxima Eficiência Econômica.
Dessa forma, mais do que aumentar indiscriminadamente as doses de fósforo, é necessário adotar estratégias de manejo que otimizem seu aproveitamento. Entre essas estratégias estão: o aumento dos teores de matéria orgânica, a correção da acidez superficial, a neutralização do alumínio trocável (Al³⁺) em profundidade, a elevação da saturação por bases para 70%, o uso de fontes de alta solubilidade e o correto arranjo da cultura.
As doses recomendadas de P₂O₅ variam entre 30 e 120 kg ha⁻¹, sendo definidas com base na análise de solo e na expectativa de produtividade. Quanto ao local de aplicação, se o teor de fósforo estiver abaixo do nível crítico (NC), recomenda-se a aplicação no sulco de semeadura. Caso o teor esteja igual ou acima do NC, a aplicação a lanço é possível, embora a aplicação no sulco proporcione maior eficiência, devido à maior concentração de raízes nas camadas de 0 a 10 cm (mais de 70%) e de 10 a 20 cm (cerca de 20%).
Em relação à adubação potássica, a literatura aponta uma menor tendência de resposta em comparação à adubação nitrogenada e fosfatada. Segundo Rosolem et al. (1996), isso pode estar relacionado à maior eficiência do sistema radicular do feijoeiro na absorção de potássio, mesmo quando os teores no solo estão abaixo do nível crítico.
Ainda assim, o potássio exerce funções importantes, como o aumento da taxa fotossintética, ativação enzimática, eficiência metabólica, desenvolvimento radicular e maior tolerância a estresses abióticos e bióticos. Também contribui para a eficiência no uso da água e para a translocação de açúcares, o que favorece o enchimento dos grãos e o aumento do valor proteico.
Em situações de deficiência, observa-se o afinamento do caule e o encurtamento dos entrenós, o que pode levar ao acamamento das plantas e dificultar a colheita. Se a deficiência ocorrer nos estágios R7 e R8 — fases de maior extração de potássio —, os impactos negativos na produtividade e na qualidade dos grãos serão ainda mais acentuados.
As doses recomendadas de K₂O variam de 20 a 80 kg ha⁻¹. Para doses superiores a 60 kg ha⁻¹, recomenda-se o parcelamento: até 60 kg ha⁻¹ no sulco de semeadura e o restante em cobertura até os estágios V2/V4. Em solos arenosos (com menos de 15% de argila), o parcelamento deve ser feito para doses acima de 30 kg ha⁻¹, a fim de reduzir perdas por lixiviação, comuns em solos com baixa capacidade de troca de cátions (CTC).
Micronutrientes na adubação do feijoeiro
Em relação aos micronutrientes, recomenda-se a aplicação de boro (B), zinco (Zn) e molibdênio (Mo). O boro, aplicado em doses de 1,0 a 2,0 kg ha⁻¹, é essencial para o desenvolvimento radicular, a absorção de potássio, a formação de vagens e a translocação de açúcares, influenciando diretamente o desenvolvimento vegetativo e reprodutivo da planta.
O zinco, por sua vez, pode ser aplicado em até 1,0 kg ha⁻¹. Sua principal função é atuar como precursor do triptofano, aminoácido que estimula a síntese de auxinas — hormônios fundamentais para o crescimento vegetal.
Já o molibdênio (Mo), com doses variando de 2 a 200 g ha⁻¹, é mais comumente aplicado via tratamento de sementes. Esse micronutriente é essencial para os processos de FBN e para o metabolismo do nitrogênio, sendo, portanto, estratégico para o bom desempenho da cultura.
Em síntese, a máxima eficiência da adubação na cultura do feijão será alcançada por meio da integração de quatro fatores essenciais:
- Análise química do solo, que orienta decisões precisas de manejo;
- Condições físicas e biológicas adequadas do solo, com ausência de compactação e alta atividade microbiana;
- Época correta de semeadura, respeitando as janelas ideais para cada região e época do ano;
- Uso de fontes de fertilizantes com alta eficiência de uso, que maximizam o aproveitamento dos nutrientes aplicados.
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