Como o gesso agrícola é produzido?

por | dez 30, 2021 | Blog Nutrição de Safras, Solo | 0 Comentários

O gesso agrícola ou até mesmo fosfogesso, é o produto oriundo da produção de fertilizantes fosfatados, como TFS, MAP e DAP. Considerado por muitos ainda hoje como “subproduto”, pode ser também classificado como uma “especialidade” dentro da produção de fertilizantes. 

Formação do gesso agrícola

A formação do gesso agrícola ocorre da reação entre a rocha fosfatada moída com o ácido sulfúrico para produção de ácido fosfórico (P2O5). Para cada tonelada de P2O5, é produzido em paralelo de 4 a 5 toneladas de gesso agrícola.

Sua composição química é de:

Sua composição química é de:

Umidade livre: 15-17%

Cálcio (Ca): 17-20%

Enxofre (SO4): 25-28%

Fósforo (P2O5): 0,6-0,75%

Flúor (F): 0,67-3,20%

Óxido de Silício (SiO2): 1,26-3,2%

Na legislação brasileira, as palavras gesso e fosfogesso não são empregadas como definições. A Instrução Normativa nº5 de fevereiro de 2007 (anexo II), denomina-se como sulfato de cálcio e dá como garantias 16% de Ca e 13% de S. Denomina-se também que o cálcio e enxofre devem ser determinados na forma elementar com obtenção do produto resultante da fabricação do ácido fosfórico ou beneficiamento da gipsita. Afirma também, nas observações, que o produto apresenta características de corretivo de sodicidade.

Formas encontradas do produto

Anidrita: chamada também de sulfato de cálcio anidro, é o gesso sem a água de cristalização. É mais duro que a gipsita e de menor interesse econômico. Possui fórmula química de CaSO4, com garantia de 23,5% de enxofre.

Gipsita: ou gesso, em sua fórmula dihidratada (CaSO4.2H2O), encontra-se naturalmente como resultado da evaporação de mares. Possui garantia de 18,6% de enxofre.

Gesso agrícola: produto obtido a partir da produção de ácido fosfórico. Possui garantia de 15% de enxofre e destaca-se na produção de fertilizantes.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Instrução Normativa no 5, de 23 de fevereiro de 2007. Aprova as definições e normas sobre as especificações e as garantias, as tolerâncias, o registro, a embalagem e a rotulagem dos fertilizantes minerais, destinados à agricultura, conforme anexos a esta Instrução Normativa e revoga a Instrução Normativa no 10 de 28 de outubro de 2004. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 1 mar. 2007. Seção 1, p. 10.

KORNDORFER, G. H. Adubos e Adubação – Gesso Agrícola. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia – MG, 2002.

VITTI, G.C. O livro do gesso. GAPE-Esalq USP.

Calagem e gessagem

As práticas de calagem e gessagem, que tem por objetivo corrigir o solo, são importantes para garantir bons índices de produtividade para as lavouras. As práticas são indicadas para locais que apresentam solos ácidos, principalmente nas regiões do cerrado brasileiro. Apesar de possuírem objetivos diferentes, ambas se complementam.

Gessagem

O emprego do gesso agrícola pode ser com o objetivo de se fertilizar o solo, reduzir a salinidade, corrigir solos sódicos e/ou com grande teor de potássio, ser condicionador de superfície, condicionador de estercos e até mesmo preventivo nas enfermidades de plantas.

Como características gerais:

-É formado por cálcio e enxofre, apresentando alta solubilidade, o que lhe confere alta mobilidade de se movimentar no solo, alcançando as camadas mais profundas (20-40 cm);

-Nas camadas mais profundas do solo, reage com o alumínio (tóxico para as raízes), neutralizando essa toxidez e permitindo o desenvolvimento de raízes em profundidade, trazendo benefícios as plantas na capacidade de absorver água e nutrientes;

-É uma boa fonte de cálcio e enxofre;

-Não altera o pH do solo.

Efeito fertilizante: os solos tropicais já apresentam baixo teor de enxofre no perfil que, somado ao uso de fertilizantes “concentrados” que não possuem enxofre em sua composição como ureia, superfosfato simples, MAP e cloreto de potássio; levam ainda mais a uma deficiência deste elemento. Para se corrigir essa deficiência, o gesso agrícola pode ser utilizando como fertilizante, pois é uma fonte de cálcio e enxofre disponibilizada ao longo do perfil do solo.

Redução da salinidade: solos com altos teores salinos se dão, principalmente, pela presença de cloreto de potássio (KCl), visto seu baixo custo para produtor e por ser uma boa fonte de K2O.  Uma forma de se diminuir a absorção de cloro (Cl-) é com fertilizantes que possuem fosfatos, visto que eles inibem a absorção do cloro, levando a uma maior lixiviação deste no solo. Para isso, o gesso agrícola é pode ser recomendado para esta finalidade.

Enfermidades em plantas: atua na prevenção de enfermidades em plantas através de duas formas:

  1. Eleva a emergência de plântulas, visto que a taxa de infiltração de água no solo se beneficia com o gesso devido a floculação da argila (melhoria das estruturas dos agregados).
  2. Visto que é uma boa fonte de cálcio, este tem função estrutural na planta (formação da parede celular), o que pode diminuir o efeito do ataque de patógenos.

Solos sódicos e com grande teor de potássio: solos sódicos são encontrados principalmente em regiões áridas e semiáridas. Prejudicam o desenvolvimento da planta tanto pela toxidez como pelos aspectos físicos.

O cálcio do gesso substitui o sódio adsorvido à argila, e a água atua lixiviando este elemento dos perfis superficiais. A partir disso, as estruturas de solos com problemas de compactação pôr Na, ficam melhores. Esse raciocínio é semelhante a solos com altos teores de potássio.

Condicionador de superfície: a toxicidade do Alumínio ocorre desde a camada arável, até mesmo nas camadas inferiores onde a correção de solo com calcário não é eficiente. A partir disso, o gesso agrícola neutraliza a toxidez de alumínio nas camadas subsuperficiais e fornece cálcio em maior profundidade, levando a um melhor desenvolvimento de raízes.

Condicionador de estercos: no processo de fermentação, ocorrem perdas de N em forma de amônia (NH3+). Neste caso, recomenda-se o uso de gesso agrícola, pois ele reage com está amônia, convertendo-a em sulfato de amônio, o que leva a uma menor volatilização. Além disso, enriquece também o esterco com Ca e S.

E quando aplicar o gesso agrícola?

Antes de tudo, deve-se realizar uma boa amostragem e análise de solo. Para culturas anuais: amostragem na camada de 20-40 cm e de 25-50 cm para cana-de-açúcar;

Para culturas perenes: 40-60 cm de solo.

Caso a análise apresente:

Saturação de bases >20%

Teor de Ca <0,5 meq/100cm³

Saturação por Al: >30% ou > 5mmol.dm

Recomenda-se a aplicação do gesso!

Para culturas anuais: N.G. (kg/ha) = 50 x % argila

Para culturas perenes: N.G. (kg/ha) = 75 x % argila

Textura do solo:

Arenoso: 500kg/ha

Médio: 1000kg/ha

Argiloso: 1500kg/ha

Calagem

Solos tropicais são, em sua grande maioria, ácidos. Fatores como precipitações elevadas que causam lixiviações das bases trocáveis do solo e ausência de minerais primários e secundários, responsáveis pela reposição das bases, contribuem para esta condição. Além disso, a própria atividade biológica e à aplicação de fertilizantes amoniacais e ureia, resulta no acúmulo de ácido nítrico (NHO3) ou ácido sulfúrico (H2SO4), contribuindo ainda mais para solos em condições ácidas.

A acidez do solo tem impacto direto na disponibilidade de nutrientes. Solos que apresentam pH baixo (ácido), tem diminuição na disponibilidade de fósforo, cálcio, magnésio, potássio, molibdênio e aumento na solubilização de íons como zinco, cobre, ferro e manganês e alumínio.

A correção da acidez do solo, que tem por objetivo aumentar o pH para valores de 5,5 a 6, é feita através da calagem. É uma prática agronômica essencial para o uso de fertilizantes pelas plantas. Além de aumentar o pH do solo, a calagem visa também neutralizar ou amenizar os efeitos tóxicos do alumínio/manganês, além de melhorar o ambiente radicular para que as plantas absorvam os nutrientes de forma mais efetiva.

Através da incorporação de cálcio e magnésio no solo, os benefícios da calagem são:

Químicos: além de neutralizar a acidez do solo, aumenta os teores de cálcio e magnésio e eleva também o pH, aumentando a disponibilidade de fósforo.

Físicos: torna o solo mais arejado, poroso e menos compactado, o que ajuda no desenvolvimento das plantas.

Biológicos: aumenta a atividade microbiana, o que favorece o desenvolvimento de microrganismos.

Calcário no solo

Quando aplicado, o calcário pode seguir por 3 vias:

  1. Transformação em bicarbonato de cálcio solúvel:
  2. Adsorção: quando transformado em bicarbonato, ocorre adsorção do cálcio aos coloides do solo, o que neutraliza sua acidez.
  3. Absorção pelas plantas: ocorre a absorção de cálcio pelas plantas através do sistema radicular seja no estado solúvel ou adsorvido.

O cálculo da necessidade de calcário pode ser feito através do método que utiliza o calcário para elevar o pH até uma faixa pré-determinada (saturação por bases) ou através do método em que o calcário é utilizado para neutralizar o alumínio trocável e suprir cálcio e magnésio, sem levar em conta o pH final alcançado (método do alumínio trocável).

Saturação por bases

É baseado na correlação entre o pH e a saturação por bases. É necessário a determinação da soma de bases (K, Ca, Mg, Na), da acidez potencial (H+Al) e da CTC do solo.

A fórmula para necessidade de calcário através desse método é:

NC = CTC (V2 – V1) / 100xf

Onde,

NC = necessidade de calcário, expressa em t/ha.

CTC = capacidade de troca de cátions (cmolc/dm3) .

f = 100/PRNT.

V1 = saturação por bases atual do solo.

V2 = saturação por bases que se pretende alcançar para a cultura a ser implantada

V=100 SB/CTC.

SB = soma de base = (Ca + Mg+ K + Na) = cmolc/dm3.

Na tabela são apresentadas as saturações por base recomendadas para cada cultura.

Método do alumínio trocável

Neste método, o critério é o alumínio trocável. A dose de calcário é calculada multiplicando-se o teor de alumínio pelo fator 1,5 ou 2, de acordo com a cultura. Outra variação deste método é que, além de se utilizar a neutralização do alumínio trocável, é utilizar a elevação dos teores de cálcio e magnésio a um mínimo de 22 cmolc/dm3, sendo calculado da seguinte forma:

NC = 2 x Al3 + [ 2 – (Ca2 + Mg2)] x fator

Fator = PRNT/100

KAMPRATH, E. J. Exchangeable aluminum as a criterion for liming leached mineral soils. Soil Science Society American Proceedings, v. 34, p. 252-254, 1970.

MALAVOLTA, E. ABC da Adubação. 5. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 1989. 292 p.

RAIJ, B. van; SACCHETTO, M. T. D. Correlações entre o pH e o grau de saturação em bases nos solos com horizonte B textural e horizonte B latossólico. Bragantia, v. 27, n. 17, p. 193-200, 1968.

SOUSA, D. M. G. de; MIRANDA, L. N. de; LOBATO, E. Métodos para determinar as necessidades de calagem em solos dos cerrados. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 13, n. 2, p. 193-198, 1989.

VELOSO, C.A.C; BOTELHO, S.M; RODRIGUES J.E.L.F; SILVA, A.R. Correção da acidez do solo. In: Recomendações de calagem e adubação para o estado do Pará / editores técnicos, Edilson Carvalho Brasil, Manoel da Silva Cravo, Ismael de Jesus Matos Viégas e. – 2. ed. – Brasília, DF : Embrapa, 2020.

Loading...